João Nunes

Crônicas publicadas no projeto.

O renascimento vem da morte

Eu, Matogrosso e o Joca vimos o jogo do Brasil aqui na minha casa pertinho do campo da Ponte Preta. Era para ser comemoração, mas terminou em baixo astral geral. Então eu argumentei que deveríamos tomar cerveja e afogar as mágoas no Bar Majestoso, em frente ao estádio, e homenagear as meninas. Bugrino, o Joca fez muxoxo, mas o Matogrosso, pontepretano que nem eu, pegou pesado e até fez rima:

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Samba-reggae e duas heroínas

A cada subida e descida do velho jato da Aeroflot eu tinha certeza de que o avião explodiria no ar e eu me despediria deste mundo ainda muito jovem. Ele lançava estranho vapor e deixava uma espécie de neblina pairada dentro da aeronave. Comemos e dormimos por 25 horas, feito frangos de granja, na longa viagem de Moscou para Quito, onde eu morava. Depois de termos parado em Dublin, Irlanda,

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Sobre Marta, Jamaica e ser humano

– Curtiu escrever as crônicas da Copa da Rússia? – Muito. – Topa escrever sobre a Copa de futebol feminino? – Sem chance. Não acompanho e não sei nada sobre. – Sabe vôlei? Tem masculino e feminino. – É diferente. – As ações dos homens são mais rígidas; no jogo das mulheres existe a mesma tensão, só que menos violenta. – Futebol feminino parece outro esporte. – Você ouviu o

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Conversa de bar*

Maicon Pogba se emociona ao ver o “primo” Paul Pogba voar pelo campo do estádio Lujniki de Moscou – a bandeira francesa tremula atada às duas mãos dele, braços atrás das costas quase chegando à cabeça. – Terminou essa mixuruca de Copa, Maicon? Então traga mais uma cerveja. Foi o Alê, químico crescido vizinho de Maicon na Vila Industrial. Teve a concordância de Zico, revendedor de cachaça artesanal fabricada pela

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O dia seguinte

Ajudo minha mãe de 95 abençoados anos a se sentar no sofá para ver o jogo. Dou-lhe almofada, manta e um pratinho de doce de coco caseiro com ameixa. “A Bélgica joga bem?”, me pergunta. Os “belgicanos”, como dizia um sujeito da minha cidade, não querem mais ser coadjuvantes, eu respondo. “Trata-se da melhor geração da história belga; não perde há dois anos – 24 jogos. É o adversário mais

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O que diria meu pai?

Alterado, o pai xingava Lazzaroni – “lazarento, põe o Bebeto”. O pai tinha sido volante (depois, técnico) muito elogiado. “Eu era batedor oficial e nunca perdi pênalti”, se vangloriava. A mãe preparava a janta e pedia calma: “Vai ter enfarte por causa dessa besteira de futebol”. Meio zen, o tio parecia entretido em picar fumo e colocá-lo na palha, mas sofria com o jogo e custava falar: “Que barbaridade!” A

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Se eu fosse o Messi…

…hoje eu não passaria nem perto dos tristes tangos de Gardel nem das sofisticadas e modernas harmonias de Piazzolla. Se eu fosse o Messi, hoje eu levantaria os olhos para enxergar um país que fugiu dos ventos glaciais, se aconchegou no calor solar e criou um ritmo espalhafatoso – usado, em geral, como subterfúgio de sobrevivência. O Brasil pode perder do México, se lamentar por algumas horas e, logo, sem

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Brasil e Principado de Liechtenstein na final

Não é a compaixão que impele o ser humano a torcer pelo time mais fraco. Na compaixão somos movidos a fazer algo concreto pelo necessitado. À comoção midiática em solidariedade ao time pequeno ou a uma nação pobre trazida pela Copa do Mundo chamamos de emoções baratas. Derramamos fortuitas lágrimas e pronto: o esboço de catarse torna-se suficiente, cumprimos nossa adesão, nosso respaldo e podemos retomar o riso (e a

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Crônicas publicadas no projeto.

O renascimento vem da morte

Eu, Matogrosso e o Joca vimos o jogo do Brasil aqui na minha casa pertinho do campo da Ponte Preta. Era para ser comemoração, mas terminou em baixo astral geral. Então eu argumentei que deveríamos tomar cerveja e afogar as mágoas no Bar Majestoso, em frente ao estádio, e homenagear as meninas. Bugrino, o Joca fez muxoxo, mas o Matogrosso, pontepretano que nem eu, pegou pesado e até fez rima:

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Samba-reggae e duas heroínas

A cada subida e descida do velho jato da Aeroflot eu tinha certeza de que o avião explodiria no ar e eu me despediria deste mundo ainda muito jovem. Ele lançava estranho vapor e deixava uma espécie de neblina pairada dentro da aeronave. Comemos e dormimos por 25 horas, feito frangos de granja, na longa viagem de Moscou para Quito, onde eu morava. Depois de termos parado em Dublin, Irlanda,

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Sobre Marta, Jamaica e ser humano

– Curtiu escrever as crônicas da Copa da Rússia? – Muito. – Topa escrever sobre a Copa de futebol feminino? – Sem chance. Não acompanho e não sei nada sobre. – Sabe vôlei? Tem masculino e feminino. – É diferente. – As ações dos homens são mais rígidas; no jogo das mulheres existe a mesma tensão, só que menos violenta. – Futebol feminino parece outro esporte. – Você ouviu o

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Conversa de bar*

Maicon Pogba se emociona ao ver o “primo” Paul Pogba voar pelo campo do estádio Lujniki de Moscou – a bandeira francesa tremula atada às duas mãos dele, braços atrás das costas quase chegando à cabeça. – Terminou essa mixuruca de Copa, Maicon? Então traga mais uma cerveja. Foi o Alê, químico crescido vizinho de Maicon na Vila Industrial. Teve a concordância de Zico, revendedor de cachaça artesanal fabricada pela

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O dia seguinte

Ajudo minha mãe de 95 abençoados anos a se sentar no sofá para ver o jogo. Dou-lhe almofada, manta e um pratinho de doce de coco caseiro com ameixa. “A Bélgica joga bem?”, me pergunta. Os “belgicanos”, como dizia um sujeito da minha cidade, não querem mais ser coadjuvantes, eu respondo. “Trata-se da melhor geração da história belga; não perde há dois anos – 24 jogos. É o adversário mais

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O que diria meu pai?

Alterado, o pai xingava Lazzaroni – “lazarento, põe o Bebeto”. O pai tinha sido volante (depois, técnico) muito elogiado. “Eu era batedor oficial e nunca perdi pênalti”, se vangloriava. A mãe preparava a janta e pedia calma: “Vai ter enfarte por causa dessa besteira de futebol”. Meio zen, o tio parecia entretido em picar fumo e colocá-lo na palha, mas sofria com o jogo e custava falar: “Que barbaridade!” A

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Se eu fosse o Messi…

…hoje eu não passaria nem perto dos tristes tangos de Gardel nem das sofisticadas e modernas harmonias de Piazzolla. Se eu fosse o Messi, hoje eu levantaria os olhos para enxergar um país que fugiu dos ventos glaciais, se aconchegou no calor solar e criou um ritmo espalhafatoso – usado, em geral, como subterfúgio de sobrevivência. O Brasil pode perder do México, se lamentar por algumas horas e, logo, sem

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Brasil e Principado de Liechtenstein na final

Não é a compaixão que impele o ser humano a torcer pelo time mais fraco. Na compaixão somos movidos a fazer algo concreto pelo necessitado. À comoção midiática em solidariedade ao time pequeno ou a uma nação pobre trazida pela Copa do Mundo chamamos de emoções baratas. Derramamos fortuitas lágrimas e pronto: o esboço de catarse torna-se suficiente, cumprimos nossa adesão, nosso respaldo e podemos retomar o riso (e a

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