João Batista Freire

Crônicas publicadas no projeto.

A lágrima do olho esquerdo

O pai viu a menina jogando. Ele desconfiou quando ela e o irmão saíram três domingos seguidos, dizendo que iam ao piquenique da escola. “Não é possível que a escola tenha tanto piquenique”, o pai pensou, e decidiu vigiar. Esperou o domingo e foi atrás. Eram oito da manhã. Foi dar no campinho do outro bairro, viu a menina com a camisa do time entrar em campo descalça, lá na

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O talento da menina

Era doida por futebol. Treinava escondida com a bola de borracha do irmão, seu cúmplice e parceiro de dribles e embaixadas, mas que fazia chantagem quando queria alguma coisa dela. – Se você não fizer a lição pra mim, conto pra a mãe que você treina escondida. E ela fazia a lição e muito mais que ele pedisse, porque era doida por futebol. Queria jogar num time, e um dia

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O fim da Copa e do colo

Por dezesseis anos ele cedeu-lhe quase sempre o colo, recusou-o algumas vezes, e agora não mais, agora o colo está vazio. E assim ficará porque ela, como a Copa, chegou ao fim. Pode-se dizer que não morreu, que apenas parou de viver. Vini era o nome dela, uma gata amarela, teimosa e sábia. Adorava Copas do Mundo. É quando ele mais tempo fica sentado na frente da TV, o colo

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A gente acha o que eles querem que a gente ache

A gente não acha exatamente o que decidiu achar. É comum acharmos aquilo que uma equipe, uma quadrilha, um grupo, um governo, uma facção, uma corporação, querem que achemos. No futebol tem sido assim. Não basta ser craque de bola para ser o melhor do time, o melhor do país, o melhor do mundo. Entram muitos outros fatores, um verdadeiro bombardeio de comunicações até que todos nos convençamos de que

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Depois de Brasil e Bélgica

Foram tantos os dias de agitação, que o silêncio na caverna parecia bem maior que o habitual. Era noite ainda, mas saí para respirar. Pela primeira vez o ar frio lá fora era menos silencioso que o ar de minha caverna. Os morcegos que a compartilham comigo, tão agitados durante os jogos do Brasil, estavam imóveis, pendurados de cabeça para baixo numa imobilidade preocupante. Eu observava o brilho das estrelas

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O caneco é nosso

Ficou amuado com o que lhe disseram os amigos: aquilo não era jeito de torcer pelo Brasil. Como não era? Tinha sido sempre assim, desde pequenininho. O pai pegava uma bandeira, a mãe uma vela, o irmão mais velho a corneta, os amigos chegavam, já mamados, e faziam a maior bagunça. E quando o Brasil perdia era um chororô; chorava mãe, chorava pai, chorava toda a família. E só porque

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Futebol sonífero

– Esse menino não dorme – falou a mulher. – Bota ele pra assistir o jogo da Espanha – respondeu o marido. O outro menino, mais velho, estava inconformado. O pai tinha mostrado o rei assistindo a partida. – Ele não é rei pai – disse o menino. – Por que? – Ele não usa coroa. Fim do primeiro tempo e o pessoal na sala inventava de tudo pra não

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O Jura Que Sabe: Brasil e Sérvia

O pessoal do Jura Que Sabe gosta de ver os jogos do Brasil no boteco do Novelo. Contra a Sérvia foi na quarta, à tarde. Dolores foi, e levou o namorado. Dolores não se interessa por futebol, mas parece que se interessa. Ela não entende de futebol, mas parece que entende. Dolores não tem varinha de condão, mas parece que tem. Ela não é mais inteligente que todo mundo, mas

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Mercado da bola

Aquela conversa de sempre, papo de botequim, cinco da tarde, três bramas na mesa. Na época da Copa, falavam da seleção brasileiro, claro. O assunto era o jogo contra a Sérvia. – Dizem que os caras são bons e bem rápidos pelos lados do campo. Não vamos ter vida fácil – disse um deles. – Que nada! Olha o que eu tenho aqui. Abriu o Smartphone e mostrou uma planilha,

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O nome da tia

Ela não estava nem aí para a Copa. Cuidava lá das suas coisinhas, alheia aos humores dos torcedores. Na sala o povo da sua família, mais os amigos, berravam, vociferavam, choravam, xingavam o Neymar, clamavam por Neymar, escalavam o time que o Tite não escalou, e o tempo, que também não estava em aí para a Copa, corria como louco para o fim do jogo. Quarenta e três, quarenta e

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Crônicas publicadas no projeto.

A lágrima do olho esquerdo

O pai viu a menina jogando. Ele desconfiou quando ela e o irmão saíram três domingos seguidos, dizendo que iam ao piquenique da escola. “Não é possível que a escola tenha tanto piquenique”, o pai pensou, e decidiu vigiar. Esperou o domingo e foi atrás. Eram oito da manhã. Foi dar no campinho do outro bairro, viu a menina com a camisa do time entrar em campo descalça, lá na

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O talento da menina

Era doida por futebol. Treinava escondida com a bola de borracha do irmão, seu cúmplice e parceiro de dribles e embaixadas, mas que fazia chantagem quando queria alguma coisa dela. – Se você não fizer a lição pra mim, conto pra a mãe que você treina escondida. E ela fazia a lição e muito mais que ele pedisse, porque era doida por futebol. Queria jogar num time, e um dia

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O fim da Copa e do colo

Por dezesseis anos ele cedeu-lhe quase sempre o colo, recusou-o algumas vezes, e agora não mais, agora o colo está vazio. E assim ficará porque ela, como a Copa, chegou ao fim. Pode-se dizer que não morreu, que apenas parou de viver. Vini era o nome dela, uma gata amarela, teimosa e sábia. Adorava Copas do Mundo. É quando ele mais tempo fica sentado na frente da TV, o colo

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A gente acha o que eles querem que a gente ache

A gente não acha exatamente o que decidiu achar. É comum acharmos aquilo que uma equipe, uma quadrilha, um grupo, um governo, uma facção, uma corporação, querem que achemos. No futebol tem sido assim. Não basta ser craque de bola para ser o melhor do time, o melhor do país, o melhor do mundo. Entram muitos outros fatores, um verdadeiro bombardeio de comunicações até que todos nos convençamos de que

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Depois de Brasil e Bélgica

Foram tantos os dias de agitação, que o silêncio na caverna parecia bem maior que o habitual. Era noite ainda, mas saí para respirar. Pela primeira vez o ar frio lá fora era menos silencioso que o ar de minha caverna. Os morcegos que a compartilham comigo, tão agitados durante os jogos do Brasil, estavam imóveis, pendurados de cabeça para baixo numa imobilidade preocupante. Eu observava o brilho das estrelas

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O caneco é nosso

Ficou amuado com o que lhe disseram os amigos: aquilo não era jeito de torcer pelo Brasil. Como não era? Tinha sido sempre assim, desde pequenininho. O pai pegava uma bandeira, a mãe uma vela, o irmão mais velho a corneta, os amigos chegavam, já mamados, e faziam a maior bagunça. E quando o Brasil perdia era um chororô; chorava mãe, chorava pai, chorava toda a família. E só porque

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Futebol sonífero

– Esse menino não dorme – falou a mulher. – Bota ele pra assistir o jogo da Espanha – respondeu o marido. O outro menino, mais velho, estava inconformado. O pai tinha mostrado o rei assistindo a partida. – Ele não é rei pai – disse o menino. – Por que? – Ele não usa coroa. Fim do primeiro tempo e o pessoal na sala inventava de tudo pra não

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O Jura Que Sabe: Brasil e Sérvia

O pessoal do Jura Que Sabe gosta de ver os jogos do Brasil no boteco do Novelo. Contra a Sérvia foi na quarta, à tarde. Dolores foi, e levou o namorado. Dolores não se interessa por futebol, mas parece que se interessa. Ela não entende de futebol, mas parece que entende. Dolores não tem varinha de condão, mas parece que tem. Ela não é mais inteligente que todo mundo, mas

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Mercado da bola

Aquela conversa de sempre, papo de botequim, cinco da tarde, três bramas na mesa. Na época da Copa, falavam da seleção brasileiro, claro. O assunto era o jogo contra a Sérvia. – Dizem que os caras são bons e bem rápidos pelos lados do campo. Não vamos ter vida fácil – disse um deles. – Que nada! Olha o que eu tenho aqui. Abriu o Smartphone e mostrou uma planilha,

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O nome da tia

Ela não estava nem aí para a Copa. Cuidava lá das suas coisinhas, alheia aos humores dos torcedores. Na sala o povo da sua família, mais os amigos, berravam, vociferavam, choravam, xingavam o Neymar, clamavam por Neymar, escalavam o time que o Tite não escalou, e o tempo, que também não estava em aí para a Copa, corria como louco para o fim do jogo. Quarenta e três, quarenta e

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